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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Brasil e o ciclo de autossabotagem

O Brasil e o ciclo de autossabotagem
Vinícius Montgomery de Miranda
                                                                                                             
O psicanalista norte-americano Stanley Rosner, co-autor do livro O ciclo da Autossabotagem, afirma que todos os seres humanos têm padrões de repetição, que embora irracionais, ocorrem sem grandes consequências. Entretanto, existem repetições que podem levar à destruição da própria vida, além de comprometer a vida alheia. Essa psicopatologia pode ocorrer no relacionamento entre pais e filhos, entre cônjuges e no ambiente de trabalho. O livro de Rosner relata histórias de pacientes que tiveram parte importante de suas vidas desperdiçadas pela insistência em agir em ciclos negativos que sabotam toda possibilidade de alcançar a felicidade. O grande problema de quem está preso no ciclo da autossabotagem é não perceber a realidade. Nesse caso, o indivíduo prefere acreditar que a insatisfação sentida ao não conseguir realizar seus planos é fruto de fatores externos. Essa negação da realidade o faz seguir em frente, sempre sofrendo.
O Brasil e muitos países da América Latina parecem presos em um ciclo de autossabotagem. Não conseguem transformar suas imensas riquezas naturais em qualidade de vida para a sua população. Preferem culpar a “exploração” dos Estados Unidos ou dos países ricos a enfrentar suas mazelas com coragem. Senão, como explicar que um país campeão de produtividade no campo, deixe de exportar seus produtos por falta de infraestrutura adequada? Por que as invasões de lavouras produtivas praticadas pelo MST recebem apoio, se essas lavouras geram empregos, renda e exportações para o país? Por que, apesar do futebol vistoso praticado nos gramados país afora, os campeonatos mais ricos estão na Europa, para onde os talentos brasileiros se mudam ainda muito jovens? Por que apesar do discurso de que é preciso valorizar a educação, as práticas de avaliação do desempenho do professor e meritocracia na definição dos seus salários, consagradas em todo mundo, é veementemente repelidas pelos sindicatos da categoria? As respostas para essas e muitas outras contradições presenciadas no dia a dia do brasileiro encontram explicação no ciclo de autossabotagem.
Na transposição do Rio São Francisco, por exemplo, desde 2007 foram investidos R$ 8,2 bilhões, sem que a obra fosse concluída. Há erros no projeto e na execução da obra. Parte do leito do canal construído já apresenta rachaduras que exigirão mais investimentos para a correção do problema. Na Ferrovia Norte-Sul, outra importante obra de infraestrutura que seria capaz de baratear a exportação de soja e outras commodities, foram investidos, desde 1988, R$ 5,1 bilhões. Se concluída, essa ferrovia tornaria os produtos agrícolas do Brasil imbatíveis na competição internacional. Porém, 26 anos após o início da obra, a ferrovia não transportou sequer um carregamento de soja, mas já apresenta problemas nos trilhos e nos taludes em função da ação do tempo. Novamente há erros de projeto e execução. Esses são apenas dois exemplos em meio a centenas de obras inacabadas, mal projetadas, ou que apresentam desvio de recursos e superfaturamento. O Brasil parece ter prazer em desperdiçar oportunidades de se tornar um país desenvolvido.
Na economia, o ciclo virtuoso que aumenta a produção e gera riqueza depende do aumento de produtividade e dos investimentos. Sem uma infraestrutura adequada de produção e de logística para escoar produtos com rapidez e baixo custo, não é possível aumentar a produtividade. Então, os custos se elevam e os lucros são corroídos pelo desperdício de tempo e de energia. As obras de infraestrutura que poderiam aumentar a produtividade da economia do país não saem do papel ou são mal geridas. Há que se perguntar então, como os demais países conseguiram resolver essa questão? A China, por exemplo, país de dimensões continentais comparáveis ao Brasil, apostou na parceria com a iniciativa privada para modernizar sua infraestrutura. Aqui o governo insiste em acreditar em um modelo econômico ultrapassado no qual é o Estado quem deve controlar o funcionamento da economia. Nem a China comunista acredita mais nesse modelo.
Há no Brasil uma iniciativa privada com capacidade técnica e avidez por fazer investimentos nos setores de ferrovia, rodovia, portos, aeroportos, saneamento básico e todo tipo de infraestrutura. Se esses investimentos ocorressem, o país daria um salto gigantesco em direção a realização de seu potencial. Milhares de novos empregos seriam gerados, o conhecimento técnico da construção de grandes obras seria transmitido para as futuras gerações, o custo logístico do país seria reduzido e o produto brasileiro se tornaria mais competitivo disparando investimentos em outros setores da economia. O aumento da produção contribuiria ainda para elevar a oferta de produtos e serviços, corrigindo o desequilíbrio atual entre a oferta e a demanda agregada. Os preços se tornariam mais acessíveis, reduzindo a inflação. A população de baixa renda seria a maior beneficiada com o aumento de seu poder de compra e as inúmeras oportunidades de trabalho nas obras de infraestrutura. Daí sim, haveria uma distribuição de renda mais equilibrada e menor dependência da assistência estatal.

As soluções para os grandes problemas da economia do país, portanto, existem. Há competência suficiente para transformar o Brasil no país dos nossos sonhos. É necessário, porém, quebrar esse ciclo de autossabotagem. Para tanto, é preciso reconhecer que a cultura do jeitinho, do improviso e da malandragem, ao contrário do senso comum, não é uma vantagem. Existe uma ciência econômica e uma ciência administrativa que precisam ser valorizadas e colocadas em prática, mesmo que isso contrarie interesses. A história mundial ensina que não se constrói uma grande civilização cerceando a liberdade de pensamento e de criação dos seus cidadãos, em benefício do controle estatal exercido por governantes iluminados, que apresentem solução para todos os males do país. Nos países onde a qualidade de vida é superior, as liberdades individuais são respeitadas. A ciência e o saber são valorizados. Os governantes são democraticamente escolhidos e sua autoridade tem limites impostos pela lei. Nesse caso, não se admite governantes despreparados e com supostos poderes messiânicos para resolver os problemas da sociedade. A história contará quantas gerações o Brasil ainda levará para atingir o estágio de desenvolvimento que merece. Quem viver, verá.

sábado, 12 de outubro de 2013

O voto como moeda de troca

O voto como moeda de troca
Vinícius Montgomery de Miranda
                                                                             
Para o sociólogo francês Émile Durkheim, a solidariedade social é o cimento que mantém a coesão de uma sociedade. Ela, porém, é fruto da interação da consciência individual com a consciência coletiva das pessoas que compõem a sociedade. A consciência individual, embora influenciada pela coletiva, é própria de cada indivíduo, e estaria ligada a sua personalidade e ao seu modo particular de pensar e enxergar o mundo. A consciência coletiva por sua vez, é responsável pela formação dos valores morais da sociedade, dos sentimentos comuns de seus membros e pela noção de certo ou errado. Dessa forma, a consciência coletiva gera uma pressão tácita sobre os indivíduos para que suas decisões estejam em conformidade com os padrões ou valores aceitos pela sociedade. É essa consciência coletiva que mantém a sociedade coesa e organizada em busca do progresso e da qualidade de vida.  

Os valores de uma sociedade, porém, normalmente são modificados ao longo do tempo por influência da evolução tecnológica, da dinâmica demográfica, pelas experiências dos indivíduos ou por modelos sociais - que decorrem da religião, da mídia, do modo de agir das autoridades, dos pais, de professores, de artistas de televisão entre outros. Ocorre que se houver um desgaste de seus valores morais, a sociedade entra em um círculo vicioso, pois, a pressão da consciência coletiva sobre os indivíduos diminui. A partir daí, os indivíduos começam a agir conforme sua consciência individual, que normalmente é muito mais egoísta e materialista. Se a sociedade não esboça nenhuma reação contrária a esse egocentrismo, seja por falta de punição legal ou a reprovação social, cria-se o sentimento de impunidade. É esse sentimento de impunidade que multiplica a transgressão dos valores morais da sociedade. Ocorre então, uma ciranda de falta de respeito ao próximo, desrespeito às leis, aumento de criminalidade, busca pelo enriquecimento material a qualquer custo e toda forma de ação antissocial. Estes são sintomas de uma sociedade com valores desgastados.

É nesse contexto que o agente político tem um papel muito importante na sociedade. Além de representar os anseios da sociedade criando leis que a mantém coesa e no caminho do progresso, ele é um espelho do material humano que constitui essa sociedade. Por isso, quando o agente político não age em prol da coletividade e sim em favor do grupo que o elegeu ou em benefício próprio, estará contribuindo para o enfraquecimento da coesão social. Se isso ocorre em larga escala, a vida em sociedade se torna um jogo, no qual o mais importante é um grupo ganhar em detrimento do outro. É o ápice da máxima em que, o importante é levar vantagem.  No final todos perdem, pois, diminui o capital social da sociedade que é muito importante por gerar credibilidade nas regras, cooperação, inovação e novos negócios.

Ao analisar a crise de representatividade política no Brasil moderno, observa-se que cada vez mais prevalece a ideia da luta de classes ou de grupos de interesses. O mais importante é eleger representantes políticos que defendam os interesses de um grupo particular, independente das consequências econômicas e sociais que isso possa trazer para toda a sociedade. É por esse motivo que cada vez mais aumentam os políticos que enxergam nas eleições uma oportunidade de negócio. O eleitor troca seu voto pela defesa de seu interesse particular. O político aceita defender interesses, mesmo que contrarie a lógica econômica, já que se trata de uma oportunidade única de ganhar prestígio e enriquecer-se rapidamente. Infelizmente quando o eleitor age dessa forma, mesmo que de forma inconsciente, está trocando o futuro de uma sociedade justa e progressista pela sensação imediata de levar vantagem. Trata-se de uma visão míope que supervaloriza o curto prazo. Cria-se uma ciranda perversa que destrói de forma silenciosa todas as possibilidades do país se tornar uma sociedade mais justa e equânime. As consequências são a concentração de renda e a formação de castas sociais, onde uns têm privilégios enquanto outros pagam a conta. Gerações inteiras tornam-se dependentes e sem perspectivas de progresso material e qualidade de vida.


Como superar esse problema? As sociedades mais desenvolvidas perceberam há séculos que fortalecer as instituições pode ser uma saída. Quando a sociedade cria leis que são compreendidas por todos os seus membros e há punição para quem as desrespeita, valores como honestidade, justiça, igualdade e solidariedade passam a ser valorizados e transmitidos de geração em geração. A sociedade se fortalece. Floresce o progresso e a qualidade de vida. Depois de o Brasil se transformar em um país democrático e relativamente rico, está chegando hora de repensar o futuro. Que tipo de sociedade é desejada: aquela em que há ordem, progresso e qualidade de vida ou o salve-se quem puder que costuma predominar em sociedades primitivas?

domingo, 23 de junho de 2013

O assistencialismo e a competição

O assistencialismo e a competição
Vinícius Montgomery de Miranda
                                                                                                             
Os biólogos que cuidam de animais selvagens criados em cativeiro sabem que é muito complicada sua readaptação ao habitat natural. Esses animais perdem a capacidade de lutar pela sua própria sobrevivência, ganham peso e adoecem. Atletas de alta performance também sabem que poucos dias sem atividades físicas atrofiam músculos, faz diminuir a massa muscular e aumentam o percentual de gordura no corpo. Essa é a lei natural da vida. O homem e todos os seres vivos foram criados para a competição.
No ambiente econômico, a competição entre empresas é a raiz de todo o processo de inovação de produtos e serviços. É para conquistar mais clientes e aumentar resultados que as empresas se arriscam, investindo em ideias que se transformam em novos produtos. A seleção natural econômica premia as empresas mais eficientes e mais inovadoras, garantindo-lhes a sobrevivência. Goste-se ou não, o homem não tem poder de alterar essa lei da vida. Quando tenta fazê-lo, o resultado é desastroso; como se observa em países como Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela, onde a qualidade de vida piora a cada ano.
Por outro lado, os países que entendem que a competição é bem-vinda, atingem elevado grau de desenvolvimento. Muitas vezes, mesmo sendo pobres em recursos naturais, como é o caso do Japão, tornam-se inovadores, desenvolvem uma indústria dinâmica e elevam a qualidade de vida de sua população. O Brasil e grande parte dos países da América Latina receberam uma herança cultural, histórica e religiosa que abomina a competição. Dessa forma, mesmo com toda a riqueza natural que possuem, não conseguem romper com as amarras que os prendem na condição de subdesenvolvidos.
No caso do Brasil, infelizmente a sociedade hesita em valorizar os cidadãos que se esforçam para ter uma vida digna. Muito pelo contrário. Para esses cidadãos sobram burocracia e tributos. Portanto, há um verdadeiro incentivo à cultura do mínimo esforço. É como se houvesse uma punição pelo esforço próprio, diante das benesses do dolce far niente. Daí a grande popularidade de programas sociais como o da Bolsa-Família. O que era para ser uma ajuda emergencial com o objetivo de reduzir a pobreza e diminuir a disparidade de renda, tornou-se meio de vida. A lógica da assistência social é que ela deveria durar apenas o suficiente para que o beneficiado se capacitasse para retornar ao mercado de trabalho. Entretanto, o que se observa país afora é que muitos chefes de família preferem manter-se na condição de desempregados ou de trabalhadores informais para continuar recebendo ajuda estatal. Os políticos espertalhões agradecem. Trata-se do voto cabresto institucionalizado, potencializado pela baixa escolaridade.

O problema maior desse assistencialismo são as oportunidades perdidas pelo país. Não há na história econômica da humanidade país que tenha se transformado sem valorizar o esforço de seus cidadãos. Coreia e China são exemplos de nações que conseguiram superar adversidades ao apostar na meritocracia e na educação. Não há segredo. Uma população mais escolarizada torna-se mais preparada para a competição do mundo atual. Os empregos são melhor remunerados. Novos negócios surgem. A qualidade de vida avança. Por que então insistir em um modelo que não deu certo em lugar algum? Porque o modelo atual gera domínio e dependência. Beneficia quem está no poder. Porque não há projetos para o país e principalmente porque quando as consequências negativas do modelo chegar, talvez o governo seja outro. E como diria John Maynard Keynes, no longo prazo todos estaremos mortos.