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sábado, 5 de janeiro de 2013

Adeus credibilidade fiscal do Brasil


O Plano Real levou décadas para estabelecer uma credibilidade na economia nacional que atraiu investimentos e modernizou o Brasil. As sucessivas intervenções do governo na economia e o descontrole nos gastos públicos, aliado ao baixo nível de investimento, além de infraestrutura em pedaços, carga tributária elevada e burocracia estão levando o país de volta ao passado.
05/01/2013 - 03h30

Editorial: Descrédito

O governo Dilma Rousseff coloca sob risco um patrimônio da política econômica brasileira conquistado a duras penas ao longo de quase duas décadas. Trata-se da confiança dos agentes privados nas ações e nos compromissos assumidos pelas autoridades.
A manobra contábil, nos últimos dias de 2012, para maquiar o fiasco na meta de poupança pública --o chamado superavit primário-- é decerto o golpe mais ostensivo na credibilidade do governo. Coroa uma série de atitudes voluntariosas que puseram em segundo plano a perseguição de objetivos centrais da política econômica.
O superavit primário deveria ser algo simples de entender e atingir. O setor público compromete-se a gastar uma quantia a menos do que arrecada de impostos. Contabilizam-se os desembolsos em ações típicas do Estado --pagar a servidores, fornecedores, aposentados, beneficiários de programas sociais etc. Ficam de fora, numa conta à parte, as despesas com juros. Com isso, garante-se que o endividamento público fique sob controle.
Em 2012 os governos federal, estaduais e municipais obrigaram-se a economizar juntos o equivalente a 3,1% do PIB, quase R$ 140 bilhões. Em anos ruins, a administração federal pode acionar o recurso, previsto na regra geral, de subtrair dessa conta desembolsos com o Programa de Aceleração do Crescimento. Abatidos esses gastos, a meta cairia para 2,3% do PIB.
Mesmo assim, fechada a conta de novembro, a poupança ao longo do ano, de 1,9% do PIB, não cumpria o objetivo. Então o governo federal deslanchou em dezembro uma operação meramente contábil para alcançar os R$ 19 bilhões restantes e dissimular o fracasso.
Forçou Caixa Econômica Federal e BNDES a pagarem R$ 7 bilhões em dividendos ao Tesouro. Num só mês, esses dois bancos estatais enviaram à Fazenda o equivalente a 35% de todos os dividendos transferidos nos outros 11 meses.
Além disso, transferiram-se para o Tesouro R$ 12,4 bilhões do Fundo Fiscal de Investimento e Estabilização --instrumento criado em 2008 que serviu, na prática, para financiar a Petrobras com dinheiro do contribuinte.
Tanta criatividade contábil, embutida numa teia de decretos feitos para não criar alarde, foi inútil para o objetivo original do superavit primário --economizar despesa do governo. O setor público não poupou um tostão com isso.
A incapacidade de controlar os gastos de acordo com o pactuado na lei orçamentária já seria um fator de desgaste para a confiança no governo. Mas a tentativa de enganar o público com toscos malabarismos fiscais vai cobrar um preço ainda mais elevado.

domingo, 12 de setembro de 2010

Artigo do presidente Fernando Henrique no Estadão

Fernando Henrique vai direto ao ponto em outro artigo antológico:


‘Democracia é o governo das leis, e não das pessoas’

Neste domingo, a inteligência e a dignidade do ex-presidente Fernando

Henrique Cardoso iluminaram a edição dominical do Estadão. Leiam o que

escreveu o chefe de governo que tivemos. Ouçam o que anda dizendo o

chefe de governo que temos. Imaginem o que serão quatro anos com Dilma

Rousseff ouvindo ordens de Lula e ideias sopradas por dirceus,

paloccis, collors e sarneys. Pensem no Brasil. E lutem. Como ensina

FHC, eleição se ganha no dia.



Bom domingo. E boa leitura:





Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização

dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos,

mas no sentido que atribui à palavra “virtual” o dicionário do

Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito

atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o

de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A

arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade

das formas institucionais se desfaz num eco que indica estar a casa

vazia por dentro.



Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras

pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana.

Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a

questão política – como se estivessem tratando com um povo de parvos

-, proclamam que “não foi nada, não; apenas um balcão de venda de

dados…” E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os

interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o

tempo passe e nada aconteça.



Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o “dossiê”

contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência da

República, misturando dados para fazer crer que também nós nos

fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos

da atual Presidência não se transformaram em “secretos” em nome da

segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos

felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa

conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.



No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito

ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável

que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se

manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de

posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o

chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras

correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos

partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que,

além de pessoal, é também institucional, na pugna política diária.

Chama a atenção que nenhum procurador da República – nem mesmo

candidatos ou partidos – haja pedido o cancelamento das candidaturas

beneficiadas, se não para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por

que não se faz? Porque pouco a pouco nos estamos acostumando a que é

assim mesmo.



Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista – que ainda

dá para evitar – incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação

política ao estilo do Partido Revolucionário Institucional (PRI)

mexicano – se o PT conseguir a proeza de ser “hegemônico” – ou do

peronismo, se, mais do que a força de um partido, preponderar a figura

do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de

leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo

pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se

venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como

durante o autoritarismo militar.



Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo

renascente, poderá até haver a anuência do povo e a cumplicidade das

elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária.

Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas

econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que nesse tipo de

regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O “dirigismo

à brasileira”, mesmo na economia, não é tão mau assim para os amigos

do rei ou da rainha.



É isto que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de

democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo o mais

pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas

oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que

devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do

poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos das

instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso

das quebras reiteradas de sigilo. Ainda assim, é preciso tentar

impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos

no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas

candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o

personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a

convicção de que a democracia é o governo das leis, e não das pessoas.



Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18

que se foram transformando em prática política e que devem ser

resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas.

É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se

valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É

inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela “vontade geral”

encapsulada na figura do líder. Isso é qualquer coisa, menos

democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus

tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não

exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação), e assim

por diante. É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo

se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do

personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal). Por mais

restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou

mesmo as características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa

é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no

caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para

derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Entrevista de Hausmann na Folha de SP de 30/08/2010

ENTREVISTA RICARDO HAUSMANN




Sucessor não terá a mesma sorte de Lula, diz economista

PROFESSOR DE HARVARD DIZ QUE, APESAR DO CAPITAL POLÍTICO, LULA NÃO FOI CAPAZ DE FAZER REFORMAS SIGNIFICATIVAS COMO AS DE FHC



Scott Eells - 28.jan.09/Bloomberg News



Ricardo Hausmann, diretor do Centro para Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard



ÉRICA FRAGA

DE SÃO PAULO



"A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte."

Com esse comentário, em entrevista à Folha, o economista Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Universidade Harvard e um dos mais respeitados especialistas em teoria do desenvolvimento econômico, encerrou uma série de críticas ao governo Lula.

Em 2008, ele escreveu o estudo "In search of the chains that hold Brazil back" ("Em busca das correntes que freiam o Brasil"), afirmando que a política de expansão fiscal dos anos recentes, alavancada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), é insustentável.

E, segundo ele, pode ter o mesmo efeito "desastroso" para a economia que a política externa de Lula teve para a diplomacia.









FOLHA - Houve avanços desde que o sr. escreveu sobre as barreiras ao crescimento no Brasil em 2008?

RICARDO HAUSMANN - Talvez você se lembre que [no estudo] eu era otimista sobre muitos aspectos estruturais do Brasil. O Brasil tem um setor privado muito forte, tem muito potencial de crescimento do investimento em muitas áreas promissoras.

Mas, nos anos de boom antes da crise de 2008, o Brasil era um dos países que cresciam às menores taxas na América Latina.

Minha avaliação era a de que isso se devia a uma taxa baixa de poupança doméstica, que exigia taxas de juros ridiculamente altas para evitar que a economia tivesse um aquecimento excessivo.

Aí veio a crise e o governo respondeu com políticas anticíclicas. Aumentou significativamente a oferta de crédito via BNDES e Banco do Brasil em um momento em que havia uma parada cardíaca financeira.

Diria que, de forma geral, a crise foi bem administrada. Mas o principal problema com muitos países, e o Brasil é um exemplo, é que, quando as coisas começam a parecer bem, eles se tornam arrogantes. Passam a acreditar num mundo de fantasia.



O que o sr. quer dizer com mundo de fantasia?

Só porque o Brasil teve por um trimestre uma taxa de crescimento acima de 7%, o Brasil agora é a nova China e o Lula é um gênio das finanças, e todos os problemas anteriores não existem mais porque o Brasil é um país diferente.

Há toda uma narrativa que tem sido criada por conta de alguns bons trimestres no Brasil que pode levar a políticas macroeconômicas muito inconvenientes. Essa narrativa é particularmente conveniente na época de eleições.

A primeira coisa que já está acontecendo é que a Selic [taxa de juros básica da economia] está subindo. Se você quisesse que a Selic aumentasse menos, a ideia seria compensar com políticas fiscais e de empréstimo pelo setor público mais estritas.

Porque, de certa forma, o Brasil é um país esquizofrênico. Você tem uma política fiscal em que o BNDES tem o pé no acelerador e o Banco Central tem o pé no freio.

Essas combinações são particularmente perigosas porque deixam a Selic muito alta em um período em que as taxas de juros globais estão muito baixas.

Isso leva os investidores a pegar dinheiro emprestado em dólares, em ienes ou em euros para colocar dinheiro no Brasil, o que gera uma forte apreciação da taxa de juros e a possibilidade de desindustrialização.



Alguns defensores da atuação recente do BNDES citam países da Ásia que atingiram altas taxas de crescimento sustentado por meio de políticas industriais. O que o sr. acha desse paralelo?

Não tenho problemas com políticas que complementam o setor financeiro, viabilizando a disponibilidade de crédito para investimentos em áreas difíceis da economia.

Não sou, de forma alguma, crítico em relação à contribuição potencial do BNDES para o desenvolvimento do país. Mas é uma organização que foi desenvolvida na época da inflação alta para proteger a economia das taxas de juros reais muito altas.

A inflação não é mais um problema no Brasil.

Seria possível que o BNDES mantivesse o foco de sua política em empréstimos para investimentos municipais, investimentos de longo prazo, apoiando pequenas e médias empresas, mas a uma taxa de juros que refletisse a Selic e não a uma taxa de juros que é muito inferior à Selic, que cria a distorção de gerar demanda excessiva pelos fundos que o BNDES tem de gerenciar.



O sr. vê o crescente deficit em conta-corrente do Brasil, em tempos recentes, como um problema?

A deterioração do deficit em conta-corrente indica que a expansão do gasto no Brasil é mais rápida do que a expansão da produção.

O efeito disso é apreciar a taxa de câmbio, desestimulando as atividades exportadoras, para liberar recursos produtivos para atender a esse boom temporário do consumo. Todas as indicações são de que as condições fiscais e a política financeira do setor público são excessivamente expansionistas. Isso vai causar prejuízo para as perspectivas de crescimento de longo prazo do Brasil.





A economia brasileira ainda é bastante fechada ao comércio exterior. Isso limita o crescimento de longo prazo?

Acho que o Brasil tem os produtos com os quais poderia ter uma presença muito maior no comércio internacional. Vocês são gigantes em agricultura, em mineração. Têm uma presença marcante na produção de aeronaves. Há uma atividade industrial vasta que poderia gerar uma presença muito maior. Mas a administração macro no Brasil tem sempre conspirado contra o potencial de longo prazo.



E isso continua acontecendo?

Na minha opinião, está piorando. Quando o Lula foi eleito, em 2002, houve uma crise econômica e ele foi muito cuidadoso ao dar confiança ao setor privado.

Agora, eles começaram a pensar que sabem mais e estão menos dispostos a serem cuidadosos. Estão se tornando mais ideológicos.

Do ponto de vista econômico, as políticas são insustentáveis como as adotadas na diplomacia.

Agora que o Brasil é grande, pode ir para a cama com o Ahmadinejad [Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã] no Irã ou hospedar o Zelaya [Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras deposto em junho de 2009] na sua embaixada em Honduras etc.

É uma atitude de que agora o país é independente, um poder diferente, e, portanto, pode confrontar o senso comum. Esse tipo de arrogância na política externa tem sido desastrosa.

E esse tipo de arrogância tem o perigo de ser igualmente desastrosa para a administração macroeconômica.



As pesquisas de intenção de voto mostram grandes chances de vitória da candidata do presidente Lula. O sr. acha que isso levará a uma continuação dessas políticas que o sr. critica?

Todo mundo sabe que o presidente Lula tem sido superpopular e ele construiu um capital político enorme. Mas esse capital político enorme não se traduziu em nenhuma reforma significativa durante seu segundo mandato [2007-2010].

Ele não tem nada a mostrar em termos de ter resolvido problemas antigos relacionados à baixa taxa de poupança, ao sistema de previdência, à infraestrutura, a ter uma estrutura tributária mais normal e funcional.

Apesar do seu enorme capital político, ele não foi capaz de fazer nenhuma reforma significativa como as feitas pelo antecessor dele.

E, recentemente, ele tem se movido na direção contrária. A grande sorte do presidente Lula foi ter tido um ótimo antecessor [FHC]. Mas o próximo presidente do Brasil não terá a mesma sorte.