Aja impostos para sustentar tanto desperdício...
Essa página é um espaço para que eu possa divulgar o meu trabalho, minhas opiniões sobre diversos assuntos (principalmente economia e política) e as belezas do Sul de Minas, com suas montanhas e cachoeiras. O significado do nome Montgomery é "além da montanha" e de Miranda é "digno de admiração". Não deve ser coincidência, portanto, que eu goste tanto de subir montanhas e admirar o horizonte.
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domingo, 30 de junho de 2013
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Acabou o imposto invisível!
- Acabou o imposto invisível!
CONTRA A DERRAMA -- O Impostômetro, inaugurado em 2005, no dia de Tiradentes. Os inconfidentes se rebelaram contra o chamado "quinto", cobrado pela Coroa portuguesa. Hoje os brasileiros pagam dois quintos de seu salário ao governo (Foto: ACSP)
Reportagem de Bianca Alvarenga, publicada na edição de VEJA que está nas bancas
ACABOU O IMPOSTO INVISÍVEL
As notas fiscais vão exibir o valor dos tributos pagos na compra de mercadorias e serviços.
A mudança vai dar susto em muita gente que se achava livre desses encargos, ou não sabia a quanto montavam
As contas pagas pelos brasileiros ficarão, a partir do próximo ano, mais justas. Isso não quer dizer que as pessoas pagarão por produtos e serviços o antigo “preço justo”, um dos conceitos básicos do sistema econômico que precedeu o capitalismo, o mercantilismo, em que o monarca, desconsiderando a lei de oferta e procura, arbitrava um preço fixo ao pão, à cerveja e à carne.
As contas ficarão mais justas no Brasil porque elas vão conter o valor dos impostos pagos pelos consumidores, que, por enquanto, é embutido no preço final das mercadorias e serviços.
É o imposto invisível.
Isso vai acabar.
Depois de mais de vinte anos, o Congresso finalmente regulamentou a lei que obriga à discriminação do valor dos impostos incidentes sobre cada produto e serviço listado nas notas e cupons fiscais. Sancionada pela presidente Dilma Rousseff na semana passada, a obrigatoriedade entra em vigor em junho.
Parte dos 63 impostos, taxas, contribuições e tributos existentes no país é paga diretamente.
É o caso, por exemplo, do imposto sobre a propriedade de veículos automotores, o IPVA, e do imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana, o IPTU.
Mas muitos tributos são cobrados indiretamente. Eles se escondem no preço final. Entre os invisíveis estão o imposto sobre produtos industrializados, o IPI, e o imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços, o ICMS. As notas trarão o valor estimado de um total de sete desses tributos que antes ficavam invisíveis.
O efeito esperado da nova lei é dar um choque cultural no consumidor brasileiro.
Ao saber o que está pagando de impostos em um cafezinho, no aluguel ou na mensalidade escolar, o consumidor tende a ficar mais exigente, cobrando mais a qualidade dos produtos e serviços e, em última análise, pressionando pela diminuição da carga tributária.
O imposto é invisível, mas não é leve
OS IMPOSTOS AGORA VISÍVEIS -- Antes, eles ficavam escondidos no preço final. Agora, o valor dos tributos será exibido na nota fiscal (CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA EM TAMANHO MAIOR)
A tributação média sobre brinquedos é de 44%.
Na compra de uma boneca Barbie de 82 reais, 32 reais vão direto para os cofres do governo, na forma de tributos federais, estaduais e municipais.
No preço da cerveja e dos espumantes, mais de 50% são impostos.
Dos 759 reais pagos por um iPod nano, 372 reais vão para o governo.
Na média, mais de 40% dos salários e rendimentos correm para os cofres públicos.
Isso significa que, somados os tributos diretos e indiretos, os brasileiros trabalham cinco meses ao ano para sustentar a máquina governamental. Mesmo assim, ainda precisam desembolsar outra boa parcela do salário para pagar por serviços que o setor público não fornece com a qualidade esperada, como educação básica, segurança e saúde.
Foi Guilherme Afif Domingos, o atual vice-governador de São Paulo, quem, como deputado constituinte, colocou esse preceito na Constituição de 1988. Ele precisou esperar quase 25 anos para ver a lei entrar em vigor. Diz Afif: “Acredito que haverá uma revolução cultural. Muitas pessoas, por ser isentas do pagamento do imposto de renda, pensam que não pagam tributos e, acreditando que os serviços são gratuitos, não cobram a melhoria deles”.
Segundo Rogério Amato, presidente da Associação Comercial de São Paulo, a nova norma deverá mudar a atitude dos gestores públicos: “A classe política é sensível à opinião pública. Quando os impostos entrarem no âmbito de debate da população, o governo olhará a questão com mais atenção”.
Até 10 de junho de 2013, todos os estabelecimentos comerciais terão de se adaptar à nova lei. Os serviços que não emitem nota fiscal deverão recorrer a painéis instalados nas agências para informar o montante de imposto pago em cada transação. Sob a encomenda da associação comercial, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) desenvolveu um programa de computador que poderá ser baixado gratuitamente da internet a partir do próximo ano e deverá facilitar enormemente a vida do consumidor interessado em saber instantaneamente quanto está pagando de imposto.
Com o programa do IBPT, basta exibir o código de barras de uma mercadoria no leitor do caixa do supermercado e ele calculará automaticamente o valor do imposto. Diz Gilberto Amaral, coordenador de estudos do IBPT: “O software deverá estar disponível a partir de fevereiro, para que as empresas façam os testes e sugiram melhorias. O programa se adaptará à necessidade das grandes, pequenas e médias empresas”.
Iniciativas como a criação do Impostômetro e do Feirão dos Impostos já mostraram resultados positivos na conscientização do consumidor.
O conhecimento dos brasileiros a respeito do pagamento de tributos vem aumentando.
Segundo a pesquisa Impacto de Tarifas e Tributos no Brasil, em 2007, 45% dos 1.000 entrevistados sabiam que pagavam algum tipo de imposto. Em 2012, o porcentual subiu para 74%.
O conhecimento dos impostos indiretos subiu de 28% para 50%.
A conscientização crescente reflete também a emergência econômica e social de milhares de brasileiros nesse período.
Afirma Christian Travassos, economista da Fecomércio do Rio de Janeiro: “Existe um cenário de expansão da percepção de pagamento de impostos. O novo quadro econômico, com o aumento do crédito e a formalização do mercado de trabalho, influenciou diretamente a pesquisa”.
Alguns especialistas em tributação foram contrários à aprovação da lei, pela impossibilidade de calcular exatamente o montante de cada imposto. Os valores exibidos nas notas não serão os efetivamente pagos, mas uma aproximação, sujeita a pequenas distorções. Os defensores da norma reconhecem suas limitações, mas acreditam que ela deverá contribuir para inibir o ímpeto de criação de tributos.
A simplificação do sistema tributário brasileiro, que mais uma vez está em fase de discussão entre o governo federal e o estados, é a esperança mais real e imediata para os consumidores. Para Afif Domingos, é vital ficar de olho para que a nova lei não seja desvirtuada. Como ele não cansa de repetir, citando o economista Roberto Campos: “A cada ação desburocratizante corresponde uma reação burocratizante de igual intensidade e em sentido contrário, que vem de forma disfarçada”.
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terça-feira, 4 de setembro de 2012
O crescimento econômico e o aumento da produtividade
O crescimento econômico e o aumento de produtividade
Vinícius Montgomery de
Miranda
É muito interessante observar a relação entre o investimento, o aumento
de produtividade e o crescimento de uma economia. Não é difícil perceber que
quando a economia está crescendo, há maior geração de empregos, os salários são
mais altos, os governos arrecadam mais impostos, e as pessoas e empresas vivem em
um clima de euforia. Ao contrário, em uma crise econômica, perdem-se empregos,
negócios são paralisados, há desalento entre os mais jovens, e no limite, pode
haver caos social. Por que então de tempos em tempos aparecem as crises? O
economista Charles Kindleberger pesquisou o assunto e percebeu que as mesmas
são inevitáveis, dada a grande quantidade de variáveis dinâmicas envolvidas. Por
outro lado, o investimento e o aumento de produtividade são variáveis que movem
as engrenagens do ciclo virtuoso da economia, gerando prosperidade.
O aumento de produtividade faz com que as empresas passem a produzir mais
produtos, utilizando menos energia, menos matéria-prima e até menos mão de obra.
Em termos gerenciais isso significa que a empresa vai produzir seus produtos e
serviços com menor custo de produção e, portanto, com maior lucro. Os mais
desavisados logo pensam - então quer dizer que o empresário sai ganhando à
custa dos empregos perdidos. Em alguns casos, empregos realmente são perdidos,
mas novos empregos podem ser gerados logo adiante. É que a partir do momento em
que há redução de custos e aumento de lucros, o empresário tende a aumentar
seus investimentos para produzir ainda mais, ampliar mercado e realimentar o
lucro. Entretanto, ao investir no aumento da produção, o empresário precisará
contratar mão de obra, aumentando a massa salarial da economia. A renda adicional
gerada pelos novos empregos será utilizada para o consumo de bens e serviços. Essa
maior demanda novamente estimula o aumento de produção, gerando a necessidade
de mais mão de obra. O ciclo virtuoso da
economia então se completa.
O ambiente competitivo, necessário para
que o ciclo virtuoso da economia funcione a contento, além de reduzir preços de
produto, é também responsável por estimular o empresário a investir em inovação.
Surgem então novos produtos e serviços e novos negócios. Estes superam os
antigos, tomando-lhes o espaço em um processo contínuo que o economista
austríaco Joseph Schumpeter chamou de destruição criativa. É esse processo que
ao longo dos séculos tem sido responsável por fazer a humanidade evoluir para melhores
condições de vida.
No próximo artigo será discutido como e
quem é o responsável pelo aumento de produtividade na economia.
Artigo publicado no Jornal O Sul de Minas em 21 de Julho de 2012. Edição Nº 3.507.
sábado, 12 de maio de 2012
CARGA TRIBUTÁRIA ABSURDA!!!
POR QUE O BRASIL TEM O IPHONE MAIS CARO DO MUNDO PAGUE UM, LEVE DOIS, TRÊS, QUARTO...

Capa da VEJA semanal falando sobre o mesmo tema
Autor(es): André Petry
Veja - 05/03/2012
Só o câmbio favorável não explica o fenômeno dos preços baixos que mesmeriza os brasileiros que fazem compras nos Estados Unidos
Flávia nem ficou grávida, mas ela e o marido já decidiram onde vão comprar o enxoval do futuro bebê. Será nos Estados Unidos. O casal sabe do que está falando. Eles já estiveram em vários outlets, os centros de compras americanos que oferecem preços arrasadores. Primeiro foram a um em Orlando, em 2007. Depois, visitaram outlets em Miami, Los Angeles e Detroit. Na semana do Carnaval, estavam no Woodbury Common Premium Outlets, a uma hora de carro de Nova York. "Aqui há mais lojas de boas marcas do que normalmente se encontra em outlets. Tem até Prada e Burberry", diz Flávia Figueiredo, 30 anos. O marido, Humberto Rodrigues, 34, não disfarça o ar de enfado com a maratona nas lojas, mas aproveita: "Não Compro mais roupa no Brasil". Ele calcula que, quando gasta o equivalente a 1 800 reais nos Estados Unidos, gastaria, para comprar o mesmo, entre 4000 e 5000 reais no Brasil. "A única facilidade do Brasil em relação aos Estados Unidos é o parcelamento. Nos EUA, é tudo à vista."
O casal de Belo Horizonte - ela trabalha na academia da família, ele é sócio em um hotel - faz parte do mais duradouro ciclo de brasileiros indo às compras no exterior de que se tem notícia. O período anterior, de 1995 a 1998, foi mais curto e mais austero. No auge, os brasileiros gastaram 5,7 bilhões de dólares anuais. Agora, é todo superlativo. Iniciado em 2004, o atual ciclo está entrando no nono ano, e, em volume de dinheiro, é um recorde atrás do outro. A maior parte sempre fica em Nova York e Miami, destinos preferidos dos compradores brasileiros. Nova York recebe mais ingleses e canadenses, mas o maior gasto é brasileiro - 1,6 bilhão de dólares em 201O. Os brasileiros gastam mais que qualquer outro povo e só não são campeões mundiais de aumento nas despesas ano após ano porque a liderança, nesse quesito, é dos chineses.
A revoada de brasileiros para o exterior deve-se, em parte, ao preço extorsivo cobrado no Brasil por produtos e serviços. Tome-se o caso do iPhone. Em Nova York, compra-se um iPhone 4S, 32 gigabytes, desbloqueado, por 815 dólares. No Brasil, ele custa mais que o dobro, 1650 dólares - é um dos preços mais altos do mundo. O custo Brasil - feito de impostos, taxas, ineficiência, infraestrutura precária, mão de obra cara e pouco qualificada - é hoje muito maior que o custo mundo.
A revoada atual é animada também pelo câmbio favorável. Depois do franco suíço e das coroas norueguesa e sueca; o real é a moeda mais valorizada do mundo. Com o dólar turismo a 1,82 real, um brasileiro paga 351 reais por um par de tênis da Asics em Nova York. No Brasil, o mesmo artigo custa 800 reais. Mas, se o dólar disparasse estupidamente - para 3 reais, por exemplo -, ele custaria 580 reais, ainda bem menos que os 800 reais cobrados aqui. É que, por trás do câmbio, há razões menos transitórias para a diferença de preço. Uma delas é o peso dos impostos. "Os americanos tributam mais a renda e a propriedade que o consumo. O Brasil faz o inverso, punindo os mais pobres", diz o economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo. Chicago tem o maior imposto sobre consumo das metrópoles americanas: 9,5%. Mas não é páreo para o Brasil, onde o imposto equivalente, o ICMS, varia de 16% a 18% e, em casos excepcionais, chega a 25%. .
Na realidade, o caso brasileiro é ainda pior porque nossos gênios tributários criaram uma jabuticaba: é o "imposto por dentro", ou seja, paga-se imposto sobre o próprio imposto. Por exemplo: se o cálculo fosse normal, um carrinho de bebê de 400 reais sairia por 472 reais - ou seja, 400 reais mais 18%. Na anormalidade brasileira, o carrinho sairá por 487 reais. Para isso, considera-se que os 400 reais não correspondem a 100% da base de cálculo do imposto, mas a apenas 82% (100% menos 18%). Em seguida, dividindo-se os 400 reais por 82%, tem-se o exorbitante preço final de 487 reais. Em Chicago, cidade de tributação elevada, o mesmo carrinho custaria 438 reais. Uma diferença de 49 reais apenas em imposto sobre o consumo. Por isso, os brasileiros são visita rotineira nos outlets americanos. Sawgrass Mills, a menos de uma hora de Miami, tem restaurante brasileiro (bufê completo, 27 reais). Jersey Gardens, a cinco minutos de um dos aeroportos que servem Nova York, recebe brasileiros que descem do avião e vão às compras antes de passar no hotel. Woodbury, onde o casal de Belo Horizonte esteve no Carnaval, tem 220 lojas. Os alto-falantes dão avisos em português.
A esmagadora maioria dos produtos vendidos nos EUA é importada, principalmente da China. A camiseta polo da Ralph Lauren vem das Filipinas (80 dólares), a calça Diesel vem da Itália ou da Romênia (150 dólares). Em Nova York, a banana orgânica vem do Equador. Compram-se 800 gramas pelo equivalente a 3,17 reais, valor mais baixo que em São Paulo, onde essa quantidade custa 5,99 reais. Sim, o tio Sam vende até banana (importada!) mais barato. O Brasil virou a República federativa dos Olhos da Cara e os Estados Unidos viraram os United States of Banana. Além da carga fiscal, isso é resultado da abertura da economia. Com acordos comerciais e queda de barreiras, o imposto de importação nos EUA vem caindo desde os anos 80. Na última década, a média nunca passou de 2%. Num levantamento com 179 países, a Heritage Foundation, promotora do livre-comércio, montou uma lista das nações mais abertas ao comércio internacional. Os EUA aparecem em l0°.lugar. O Brasil, em 99°, fica atrás até de sumidades como Burkina Faso. Pelo menos está na frente dos outros países dos Brics: Índia (123°), China (138°) e Rússia (144°).
Economias abertas são as que menos punem seus consumidores, mas abrir fronteiras não é um processo indolor. A indústria automobilística americana sangrou com a concorrência asiática. Na crise de 2008, beijou a lona. Com ajuda oficial, reergueu-se e pagou quase tudo o que recebeu do governo. A GM voltou a ser a maior fabricante de carros do mundo. A indústria têxtil é outro exemplo. Quase sumiu do mapa depois que a China, beneficiada pela redução de tarifas e sua imensa mão de obra barata, inundou o mercado americano com vestuário barato. Um pedaço do setor têxtil sobreviveu pendurado no estado, graças à lei que obriga as Forças Armadas a comprar tudo da indústria nacional - uniformes, fardas, barracas, paraquedas. Só aí são 2 bilhões de dólares por ano. Mas, num exemplo de como o mercado pode se ajustar criativamente à realidade, outro pedaço da indústria têxtil virou uma vitrine de alta tecnologia. Hoje, fabrica biotêxteis, tecidos antimicrobianos e antivírus, compatíveis com fluidos e células do corpo humano. Eles são usados em suturas cirúrgicas, aparelhos ortopédicos, válvulas cardíacas, próteses externas e internas, até como pele artificial.
A volta por cima não se deu no vazio: é resultado do dinamismo impar da economia americana e de seu ambiente altamente competitivo. Nos EUA, há liquidação de casacos de lã no inverno, não apenas no verão. A concorrência está no sangue dos americanos. Em Nova York, recebe-se até telefonema de dentista oferecendo clareamento de dentes a bons preços. Com concorrência agressiva, o americano trabalha com margem de lucro mais estreita. Prefere vender barato mesmo tendo de vender mais. Na cultura brasileira, prevalece o inverso. Com margens de lucro maiores, o brasileiro prefere vender caro mesmo que venda menos. Os EUA não fariam nada disso se não tivessem duas grandes vantagens: boa infraestrutura e mão de obra qualificada, sinônimo de alta produtividade. Dos 255 milhões de pessoas que foram à universidade no mundo, 26% moram nos EUA, uma concentração como não se vê em nenhum outro país - nem na China, nem no Japão. A alta escolaridade dos americanos é atávica. Thomas Jefferson, o terceiro presidente do país, já se gabava de que os agricultores americanos eram "os únicos no mundo capazes de ler Homero". Os Estados Unidos, porém, são o único país rico em que há mais universitários se aposentando do que entrando no mercado de trabalho. No Brasil, é o contrário. Neste ano de eleição presidencial, poucas coisas têm sido tão criticadas pelos americanos quanto a infraestrutura do país. Em 2009, um relatório da associação dos engenheiros civis descreveu um cenário dramático. Dizia que os EUA precisam gastar 2,2 trilhões de dólares em cinco anos para voltar a ter pontes, estradas, esgoto e aeroportos em boas condições. Comparada à do Brasil, porém, a infraestrutura americana, ainda que considerada ruim pela opinião local, é um sonho. Os americanos têm quatro vezes mais rodovias, cinco vezes mais linhas férreas e oito vezes mais aeroportos que o Brasil. Estima-se que a redução de 10% no custo do transporte repercuta num aumento de 20% no volume do comércio externo e interno de um país. Diz o economista Carlos Langoni, da Fundação Getulio Vargas: "Até hoje, o açúcar do Brasil vai de caminhão. Se fosse de trem, o custo do transporte cairia até 30%".
"As vantagens americanas são a confluência de uma série de fatores construídos ao longo da história", diz o consultor Sérgio Millerman, da Câmara de Comércio Brasil-EUA, em Nova York. "O Brasil não mudará o cenário geral de uma hora para a outra." O brilhante historiador Gordon S. Wood afirma que os Estados Unidos já nasceram como "a nação mais voltada para o comércio da história". Ainda no século XVIII, o comércio era visto como agente civilizatório. Por encorajar a troca e o intercâmbio, ajudava a selar a confiança entre pessoas e nações. Explorado em todo o seu potencial, levaria até à supressão da guerra. Era nessa alta conta que os primeiros americanos tinham o comércio - e nunca deixaram de vê-lo sob esse ângulo favorável.
A própria mentalidade dos consumidores americanos ajuda a controlar os preços. Criados no capitalismo competitivo, eles foram educados na mais afluente das sociedades de consumo. Na virada do século XIX para o XX, viram nascer as lojas de departamentos, que pela primeira vez ofereceram múltiplas opções de compra num único lugar. Acompanharam o surgimento de novas tecnologias que viabilizaram a modernização das embalagens - garrafas, latas, plásticos - e, assim, fizeram nascer as "marcas". Não se vendia mais arroz a granel, mas embalado, e com nome próprio. Isso deu origem a uma indústria poderosa: a propaganda, que superou a educação e a religião na formação de hábitos de consumo. Os EUA também foram pioneiros na massificação do crédito ao consumidor. Nos anos 50, já usavam cartão de crédito internacional, facilidade que só apareceu no Brasil quarenta anos depois. Tudo isso ajudou a formar hábitos. Os americanos pesquisam, não compram com preço excessivo, não fazem concessões em termos de qualidade e preferem jogar um produto fora a consertá-lo. Hoje, usam Facebook e Twitter para partilhar elogios e críticas a produtos e serviços - de restaurantes a brechós. A empresa criticada na rede social responde de imediato. No Brasil, teste você mesmo: sua crítica pode mofar sem obter resultado algum.
Com tudo isso, o consumidor americano foi forjando um mercado com escala - com produção em massa e consumo em massa - e, também, com o minimo de burocracia. Se um empresário quiser construir um depósito, conectar a instalação elétrica à empresa de energia e registrar o imóvel, esperará pouco mais de três meses para obter as autorizações e os alvarás. No Brasil, isso levará mais de um ano e meio. O Banco Mundial informa que é mais fácil abrir uma empresa em - de novo – Burkina Faso do que no Brasil. Em termos de burocracia, os americanos vivem em outro mundo, a começar pelo fato de que não têm cartório. Resolve-se qualquer papelada junto à prefeitura, aos bancos ou aos notários. Nem há palavra em inglês que abrace a enormidade do vocábulo "cartório". No Brasil, cartório é tudo. Na pequena Alvinópolis, em Minas Gerais, existem nove cartórios. Em Bodocó, em Pernambuco, existem quatro. É evidente que há algo errado quando 20 000 alvinopolenses e 35 000 bodocoenses precisam de treze cartórios para viver e 310 milhões de americanos não precisam de nenhum. Enquanto o Brasil patina no seu próprio custo e exporta consumidores, os americanos agradam a endinheirada clientela brasileira. Em maio, a Macy"s, ícone do consumo americano, começará uma campanha em homenagem ao Brasil. As lojas de Nova York, Filadélfia, Minneapolis, Chicago e São Francisco amanhecerão decoradas como um oásis tropical. O mote da campanha é "Brasil: jardins no paraíso". Pensando bem, faz sentido.
O desafio tsunami cambial
Em um único dia, 4 trilhões de dólares trocam de mãos nos diversos mercados cambiais de todo o mundo. O volume de negociações é infinitamente superior ao volume das transações comerciais, de 20 trilhões de dólares ao ano. Em um espaço de apenas cinco dias, portanto, os investidores e especuladores compram e vendem moedas em uma quantidade equivalente à negociada em todo o ano pelas operações de comércio. Esses números ajudam a entender por que os países perderam o poder de determinar o valor de sua própria moeda, algo que parecia um direito soberano tão sagrado quanto escolher as cores da bandeira e a letra do hino nacional.
O Brasil, nos últimos anos, vem sendo confrontado intensamente com essa realidade. A economia brasileira tem sido um forte atrator de investimentos estrangeiros em dólar. Parte disso se deve às perspectivas internas favoráveis (crescimento no consumo e estabilidade da política econômica) e externas (valorização rápida do preço dos produtos da pauta brasileira de exportação). Outra parte da explicação está no excesso de liquidez em dólar no mundo, resultado das emissões gigantescas dos bancos centrais dos países ricos, que tentam, assim, reaquecer sua economia, vitimada pelas crises financeiras recentes.
O volume recorde de dólares que entra no Brasil jogou a cotação da moeda americana para um patamar abaixo de seu valor histórico médio. Desde o início do ano, a valorização do real na comparação com o dólar foi a segunda maior do mundo. A presidente Dilma Rousseff descreveu a situação em termos dramáticos: "Estamos preocupados com esse tsunami monetário dos países desenvolvidos. A presidente foi mais sincera e precisa do que seu ministro da Fazenda, Guido Mantega , que enxerga naqueles movimentos uma "guerra cambial". O governo brasileiro decidiu estender a cobrança dos 6% do imposto sobre operações financeiras (IOF) para empréstimos externos feitos por bancos e empresas brasileiros com prazo de até três anos. O IOF antes incidia apenas sobre empréstimos com prazo de até dois anos. Essas ações de controle cambial, além de mascarar as reais distorções da economia brasileira, têm efeito limitado e transitório. Os investidores sempre conseguem driblar medidas como as da semana passada. "As empresas podem fazer financiamentos externos com prazos maiores do que três anos e, assim, conseguem fugir do IOF", diz Bruno Lavieri, economista da consultoria Tendências. Artifícios tributários não farão desaparecer as razões estruturais do custo Brasil.
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